(des-acostumar)
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Pensava, enquanto ainda respirava, que quando morresse seus pensamentos iriam ser levados para um lugar que nem a ciência descobriu ainda. Ver seu corpo ser levado dentro de um caixão por homens habilidosos não é a melhor cena do mundo. Aquela casa em que entrei a um dia atrás não me confortava mais, muito menos segurava minhas lagrimas. Tudo lá me lembrava minha infância. Cada momento, cada choro, cada sorriso… Era triste. Sentia saudade de algo que nem, ao menos, eu sabia. Meu sub-consciente disse para sair daquela casa, o mais imediato possível. E eu, meio sonambulo, fui-me embora. Para aonde? Não sei. A rua estava muito escura para eu pensar. Resolvi sentar-me na calçada e esperar o sol encostar em meu rosto. E, então… Fui levada pelo sono e o cansaço. Apesar de mortos não dormirem, as necessidades humanas ainda predominavam em mim. Dormir, comer, rir… Tantas coisas que já faziam tempos que eu não os praticavam. Apesar de estar ali em apenas 2 dias, meu cérebro capturou muito mais que isso. Ele dizia que eu estava ali a muito mais tempo… Semanas? Aparentavam, mas… “Fuja…” “Se esconda!” “Não fique ai… Corra, fuja… Não se entregue!” Essas frases… Elas saltavam de mim com mais força ainda. Me pergunto o que tudo isso queria me dizer? E, também, porque eu estava ali e não fui logo para um lugar melhor como todos os outros? Morrer de pneumonia não é o mesmo de que suicidar-se. É algo inesperado. Não tinha certeza se ainda era um corpo. Talvez, só mais um pouco da minha imaginação. Afinal, eu não via ninguém. Não sentia ninguém. Somente aquelas frases… E eu estava vivo? Morto? O que eu sou, afinal de tudo? Foi aí que o sono me pegou e só foi largar enquanto o sol gritava no meu rosto. Isso se aquilo ainda podia ser chamado de sol. Agora, tudo estava mais claro. Literalmente. Eu dormi, era isso? Senti-me mais revigorada. E, por incrível que pareça, não sonhei com nada. Muito menos com pesadelos. A rua em frente a casa em que eu havia saído 5 horas atrás estava um pouco estranha. Me dava a impressão que alguém já esteve ali. Levante-me e logo percebi que não sentia minhas pernas. Mas, mesmo assim, meu andar estava perfeito. Não tinha quem me apoiar. Então, segui pela rua ao contrario de como eu cheguei a tal casa. Não tinha mais lugar. Não tinha casa, não tinha mais ruas. Prédios? Muito menos. Que “cidade” era aquela que nem edifícios tinha? Só via árvores. Árvores, árvores… E mais árvores. E logo a frente, tinha uma floresta. Daquelas que pareciam ser sombrias a noite. Por enquanto, até agora com sol, aquilo me assustava um pouco. Não sei dizer se o que me assustava era a sensação de ter alguém te seguindo ou saber que algo pode estar perigoso naquele lugar. (…) Enquanto mais andava, mais sentia que algo ou alguém me seguia. Sentia sua respiração perto de mim. Seus passos. Não reconhecia-o. E, também, não tinha coragem o bastante para virar-me o rosto. Então, comecei a andar um pouco mais rápido. Entre tanto, parecia que algo me perseguia cada vez mais. Corri. E aquilo corria atrás de mim. Se eu o vi? Não. Tinha medo do que podia acontecer se virasse meu rosto para encarar aquilo. Chorar não ia adiantas nada. Tão quanto, correr. Se me perseguia agora, não pararia de me perseguir. Parei. Meu coração acelerava. Tinha que virar o rosto. Pouco a pouco, meu rosto foi virando-se. Fechei meus olhos. Senti algo tocar meu ombro. Meu corpo foi se virando junto… Abri meus olhos com calma. Estava embaçado. Comecei a piscar, até conseguir ver algo. Era a… Laura! Estão tentando ressuscitar os mortos, é isso?
